31 agosto 2006




Esta instalação, inspirada num "pau ensebado", compõe-se de uma série de embrulhos em forma de pão, feitos com papel de jornal e cola branca, pendurados em cabo de sizal. Os embrulhos estão identificados com os títulos dos "jornais de referência" portugueses. Aqui e ali aparecem misturados pães verdadeiros.

Este projecto foi produzido por Alexandre Mestre, José Luís Gomes, Daniel Sousa e Diogo Pinto. Agradecimentos à Palmira Parente, ao Júlio Sousa Gomes, ao eng. José Neto e à Olga Seco.

Administração do blogue e textos: Pedro Penilo

22 agosto 2006

Sobre "O Milagre das Rosas"

O “Milagre das Rosas” faz parte do meu arquivo de memórias tristes nos tempos da escola primária, das narrativas pseudo-históricas de J. H. Saraiva e do fascismo português.

O convite para participar na série de intervenções de arte urbana “Circuito das Fachadas – Outra Margem”, promovida no âmbito das Festas da Cidade de Coimbra, obrigou-me a tomar consciência de antiga suspeita, latente e difusa, guardada dos tempos de infância: a lenda – como todas as lendas, instrumento de formatação ideológica – esta lenda era, até para uma criança, profundamente amoral e inquietantemente actual no espelhamento dos vícios e perversões estruturantes da classe dirigente e elites do nosso país, ao longo da sua história.

“Outra Margem” tornou-se então para mim a outra versão, valores mais dignificantes, outros projectos para um povo celebrar. Coimbra, uma das mais antigas cidades da Península Ibérica, e a sua Universidade, das primeiras na Europa, merece ser representada por outras narrativas, símbolos e um imaginário de sabedoria, coragem e responsabilidade.

20 agosto 2006

"Zugswang", de Vítor Silva

Ante a pávida corte, o rei trovador faz a sua muda: xeque à rainha branca.
– «Senhor fremosa e do muj loução / coraçon», que levais nessa abada?
(Os cortesãos suspendem a respiração.)
– São rosas, Senhor são rosas!
– Cavaleiros, bispos e castelões teimam que é pão para peões.
Abre-se o regaço. (O cortês público ovaciona eufórico, clama milagre.) Perde o poeta o pé. Ai! Pica-se nos espinhos do ludíbrio da razão, do logro da coerência.
Fora outro o conteúdo do avental, baniria Denis (gr. Diónysus) a santa e real consorte?
Xeque-mate!

04 julho 2006

Caridade



Antes de mais, o “Milagre das Rosas” é o elogio (paradoxal) da caridade, da entrega aos pobres. Pergunta: que faz uma rainha – uma governante – a distribuir pão aos pobres na rua? Só a histórica resignação com que os portugueses recebem o pouco que os nossos governantes têm para lhes dar consegue ocultar a evidência: aos governantes não compete a caridade; aos governantes compete governar para o seu povo, dos governantes exige-se o desenvolvimento de políticas que tornem a caridade desnecessária.

Mas é a caridade o grande projecto daqueles que dirigem Portugal. Compare-se o peso titânico da Santa Casa da Misericórdia com o do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Oiça-se os discursos do nosso mais alto magistrado do Estado promovendo no combate à exclusão soluções assistencialistas e a jusante das causas do crescente fosso social. Pasme-se com o louvor da “solidariedade dos portugueses”, proferido durante a entrevista ao programa “Diga Lá, Excelência”, da boca da responsável do Banco Alimentar Contra a Fome. Que portugueses serão esses, os solidários? Terá pensado na solidariedade dos pobres que ajudam os ainda mais pobres? Ou entenderá como solidariedade o alívio que é para as consciências dos mais bafejados pela sorte deixar um saco de plástico com pacotes de arroz e leite à saída de um hipermercado? Será solidária uma cultura empresarial que prefere a falência à lealdade, os baixos salários à gestão competente, que prefere o lucro fácil à inovação, que aceita com passividade a hipoteca de milhares de vidas jovens entregues aos obscuros corredores de um qualquer call center.

Ou será que a caridade compensa?

Coragem política

Quando o rei entra a em cena, a rainha envergonha-se, oculta o que está fazendo. À pergunta “Que levais nesse regaço?” responde: “São rosas, Senhor, são rosas.”

Que nos ensina a lenda? Ensina-nos que a dedicação aos que sofrem é motivo de melindre tal, que não se confessa nem ao próprio marido e rei. Ensina-nos ainda que não é próprio de um governante usar os cofres do estado a favor dos que mais necessitam. Desculpabiliza a falta de coragem para assumir um acto justo, ainda que insuficiente.

Ainda hoje ouvimos, da boca dos que têm poder, como “modernidade” significa conformar-se com as regras do jogo da injustiça. “Não há almoços grátis” significa “Talvez não possas tu almoçar de vez em quando” ou, “E se começasses a pensar em deixar de almoçar?”. Ainda hoje, àqueles que menos têm é dito e repetido que vivem “acima das suas possibilidades”. E como eles, e apenas eles, enchem os cofres do estado com os seus impostos, verão esse dinheiro construir estradas que continuarão a pagar, ou pontes onde irão morrer.

A vergonha de governar para o povo vai sendo substituída pelo orgulho de rapinar.

Mistificação

O pão é transformado em rosas. O artifício (o milagre) substitui o essencial pelo acessório. A acção pela omissão. O miolo pela cor. O gesto pelo desmaio.

Ainda hoje, muitos daqueles que têm o dever de informar, tal como muitos dos que têm o conhecimento como missão, ensaiam o seu pequeno truque da explosão das rosas. Meios de comunicação social, intelectuais e artistas participam despudoradamente na sociedade do espectáculo. Cada vez menos empenhados no esclarecimento, no destrinçamento de toda a verdade que liberta, aceitam e reproduzem os mecanismos da sedução e do encantamento.

Milagres

Do jarro de Baucis e Filémon o vinho não pára de jorrar, oferecendo repasto abundante aos deuses que acolhem na sua casa de pobres. Jesus opera a multiplicação dos pães, salvando da fome os necessitados. O Flautista de Hamelin atrai os ratos para o fundo do rio, limpando a cidade e exconjurando a peste. Em Portugal, o milagre safa a rainha de apuros conjugais...

Mas também neste país, Deuladeu Martins manda lançar o último pão do alto das ameias. Ilude o inimigo e liberta o seu povo do cerco, da fome e do domínio estrangeiro.

Milagre invertido, pão da coragem.

"Quando andava na 3ª classe", de Natália Bravo

Quando andava na 3.ª classe, vestiram-me de aia, porque era muito magrinha para poder fazer de rainha, e depois de muitos ensaios lá representei o papel de ir atrás da Idalina, a miúda maior da classe, essa sim vestida de rainha e com rosas enroladas nos saiotes, rosas que, em vez de pão, deveria deixar cair no momento exacto.
Que falhou.
E então as rosas cairam antes do rei (que era a prima da Idalina mascarada, porque a escola não era obviamente mista...), antes do rei dizer senhora-que-levais-no-regaço?
A Idalina em vez de dizer o clássico são-rosas-senhor, desmanchou-se a chorar e a prima dela, que era o rei, com os nervos, desatou a rir. Eu, a quem os milagres em geral me faziam sempre medo, fiquei aterrorizada com este em particular, ganhando-lhe a partir de então um ódio que tenho estimado vida fora...

29 junho 2006