04 julho 2006

Caridade



Antes de mais, o “Milagre das Rosas” é o elogio (paradoxal) da caridade, da entrega aos pobres. Pergunta: que faz uma rainha – uma governante – a distribuir pão aos pobres na rua? Só a histórica resignação com que os portugueses recebem o pouco que os nossos governantes têm para lhes dar consegue ocultar a evidência: aos governantes não compete a caridade; aos governantes compete governar para o seu povo, dos governantes exige-se o desenvolvimento de políticas que tornem a caridade desnecessária.

Mas é a caridade o grande projecto daqueles que dirigem Portugal. Compare-se o peso titânico da Santa Casa da Misericórdia com o do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Oiça-se os discursos do nosso mais alto magistrado do Estado promovendo no combate à exclusão soluções assistencialistas e a jusante das causas do crescente fosso social. Pasme-se com o louvor da “solidariedade dos portugueses”, proferido durante a entrevista ao programa “Diga Lá, Excelência”, da boca da responsável do Banco Alimentar Contra a Fome. Que portugueses serão esses, os solidários? Terá pensado na solidariedade dos pobres que ajudam os ainda mais pobres? Ou entenderá como solidariedade o alívio que é para as consciências dos mais bafejados pela sorte deixar um saco de plástico com pacotes de arroz e leite à saída de um hipermercado? Será solidária uma cultura empresarial que prefere a falência à lealdade, os baixos salários à gestão competente, que prefere o lucro fácil à inovação, que aceita com passividade a hipoteca de milhares de vidas jovens entregues aos obscuros corredores de um qualquer call center.

Ou será que a caridade compensa?

3 Comments:

Anonymous Vítor Silva said...

É certo que a caridade deveria ser desnecessária.
É aceitável afirmar que esconde interesses classistas de perpetuação de privilégios e mordomias.
É discutível sustentar que é uma forma diluída de escravidão.
Mas, é importante reconhecer que, sem esta, os excluídos, marginais, drogados, criminosos…, numa sociedade marcada pela diferença, seriam mais e as injustiças maiores.
Veja-se o caso dos povos que vivem no limiar da sobrevivência. Se o auxílio dos países ricos deixar de chegar, morrerão aos milhões. Certamente que seria melhor ajudá-los a superarem as suas dificuldades, ensiná-los a usar os recursos do território em que tiveram o azar de nascer. No entanto, não poderia ser tal facto visto como mais um acto de caridade paternalista. Não será também caridade a ajuda que comunidades, geralmente pobres, prestam aos seus elementos desfavorecidos?
Com certeza que o intuito deste blogue é muito louvável, no entanto penso que não devemos ficar por uma visão dicotómica do problema, pois ele é multifacetado.

11 julho, 2006 09:36  
Blogger Pedro Penilo said...

Caro Vítor Silva: o que no texto se critica é a caridade como projecto de governação. Qualquer ajuda que contribua para aliviar o sofrimento é positiva para quem a recebe. Mas pode ser muito negativa, se não fôr vista como insuficiente, para a consciência de quem a dá.

11 julho, 2006 19:15  
Blogger Matemática2050 said...

Completamente de acordo com o Penilo a falsa caridade dos vendilhões do templo está à vista com o código do trabalho do senhor Sócrates que na oposição disse cobras e lagartos do código do senhor Bagão Félix. E depois pedem para os portugueses terem mais filhos. E as condições para os acompanhar e alimentar?

Celestino Escaleira

30 junho, 2008 23:10  

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