04 julho 2006

Coragem política

Quando o rei entra a em cena, a rainha envergonha-se, oculta o que está fazendo. À pergunta “Que levais nesse regaço?” responde: “São rosas, Senhor, são rosas.”

Que nos ensina a lenda? Ensina-nos que a dedicação aos que sofrem é motivo de melindre tal, que não se confessa nem ao próprio marido e rei. Ensina-nos ainda que não é próprio de um governante usar os cofres do estado a favor dos que mais necessitam. Desculpabiliza a falta de coragem para assumir um acto justo, ainda que insuficiente.

Ainda hoje ouvimos, da boca dos que têm poder, como “modernidade” significa conformar-se com as regras do jogo da injustiça. “Não há almoços grátis” significa “Talvez não possas tu almoçar de vez em quando” ou, “E se começasses a pensar em deixar de almoçar?”. Ainda hoje, àqueles que menos têm é dito e repetido que vivem “acima das suas possibilidades”. E como eles, e apenas eles, enchem os cofres do estado com os seus impostos, verão esse dinheiro construir estradas que continuarão a pagar, ou pontes onde irão morrer.

A vergonha de governar para o povo vai sendo substituída pelo orgulho de rapinar.

1 Comments:

Anonymous Vítor Silva said...

Zugswang
Ante a pávida corte, o rei trovador faz a sua muda: xeque à rainha branca.
– «Senhor fremosa e do muj loução / coraçon», que levais nessa abada?
(Os cortesãos suspendem a respiração.)
–São rosas, Senhor são rosas!
–Cavaleiros, bispos e castelões teimam que é pão para peões.
Abre-se o regaço. (O cortês público ovaciona eufórico, clama milagre.) Perde o poeta o pé. Ai! Pica-se nos espinhos do ludíbrio da razão, do logro da coerência.
Fora outro o conteúdo do avental, baniria Denis (gr. Diónysus) a santa e real consorte?
Xeque-mate!

20 agosto, 2006 16:58  

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